Aprendi a ser feliz
Relato
Aprendi a ser feliz
Edição 2154 - Publicado em 03/Novembro/2012 - Página A6
Joselito alia a prática do Budismo Nitiren ao seu amor pela educação e assim contribui para a transformação social
Joselito Gomes da Silva
responsável pela Área Rio Potengi, RE Rio Grande do Norte, CRE;
45 anos, professor; budista há 23 anos
responsável pela Área Rio Potengi, RE Rio Grande do Norte, CRE;
45 anos, professor; budista há 23 anos

ALEGRIA.
Joselito venceu as dificuldades e desfruta de harmonia familiar e
felicidade. Ao fundo, Forte dos Reis Magos em Natal, RN e acima uma das
belas praias do estado

VAMOS
VENCER. Os amigos e amigas de Joselito da Área Rio Potengi na primeira
reunião de líderes na qual decidiram vencer e expandir os laços de
amizade Soka

FAMÍLIA. Joselito realiza a Cerimônia de Concessão de Gohonzon de sua sobrinha, Aline
Nas mãos da rainha
As memórias de Joselito transbordam num misto de carinho e saudades. Na casa de dois cômodos, casa de fundo de vila, ele cresceu com as irmãs. O chão era batido e na frente tinha um cacimbão - poço para tirar água. Todos os dias, ele caminhava meia hora para chegar à escola e levava carreira dos meninos mais velhos. “Eles tiravam sarro da gente, isso é levar carreira.” Quando voltava, o que tinha para comer era arroz e feijão. E só. As brigas entre os pais, tornaram-se comuns, mas não na frente das crianças. Eles se separaram, o pai foi embora e chegou um momento de muita dificuldade financeira. Em meio a tudo isso, sua lembrança mais terna é a da mãe; mulher batalhadora que não deixava nada faltar. “Lembro-me do carinho dela. Num aniversário meu, ela economizou muito e me comprou um violão. Quando acordei, ela estava com o violão na mão. [pausa] Era a minha rainha.”
Joselito começou a trabalhar aos 12 anos como jardineiro e se dividia entre trabalho e estudo. Dois anos depois, foi trabalhar numa padaria e largou os estudos. Enquanto isso, a mãe vendia carvão e costurava para fora. Nessa época, ela ficou muito doente e não podia mais trabalhar. “Decidi sustentar a família e dar à minha mãe tudo o que ela precisava”, relembra.
As irmãs se casaram. Mas a mais velha e seu marido moravam com Joselito e a mãe. A situação de desarmonia retornou, desta vez entre a mãe e o cunhado.
Após uma discussão, seu coração ficou acelerado e ela foi para o hospital. Ao ser atendida, aplicaram-lhe soro glicosado. No entanto, era diabética e entrou em coma. Dois dias depois, faleceu aos 57 anos.
Uma grande tristeza tomou o coração de Joselito. Ele diz que não conseguia pensar em nada: “Eu ia trabalhar como um quiabo. Ficava quieto. Tinha ideias muito soltas”.
Nessas circunstâncias, conheceu o Budismo Nitiren. “Olha, é bom lembrar dessa época, mas é dolorido sim. Hoje, percebo como o budismo é maravilhoso e mudou a minha vida”, afirma.
Gritar para o mundo
Ao recitar o Nam-myoho-rengue-kyo, a convite de um amigo, Joselito sentiu alegria e grande paz. “Até hoje, quando termino o meu Daimoku, me dá vontade de gritar ao mundo como sou feliz”, revela.
Ele recebeu o Gohonzon em agosto de 1989. Essa data foi marcada pela emoção de um recomeço e alguns desencontros. Nesse dia, Joselito havia combinado com o patrão que sairia mais cedo. Mas o patrão se atrasou.
Quando chegou para receber o Gohonzon, a cerimônia havia terminado. Aos risos, ele relembra: “Nessa hora, a Sra. Kikuta, veterana do Rio Grande do Norte, pediu para todos voltarem dizendo: ‘Joserito [com sotaque japonês] tem de receber o Gohonzon. Volta todo mundo’”.
A irmã mais velha não aceitou a prática dele e, por essa razão, ele saiu de casa. A desarmonia ainda permanecia.
A partir de um juramento, Joselito mudou isso. “Certo dia, estava na sede regional e o clima lá era totalmente diferente de casa. Decidi que a minha família praticaria e que seríamos felizes. Fiz esse juramento ao meu mestre.”
Ele percebeu que não é certo praticar o budismo apenas para resolver seus problemas; é preciso compartilhar. “Realizar o Chakubuku é ver o outro como parte da minha transformação.” Com isso em mente, ele fez Chakubuku na maioria dos familiares.
Uma aventura
Em 1990, saiu de Natal em busca de melhores condições na cidade de São Paulo. Morou em Ferraz de Vasconcelos com quinze pessoas – todas desempregadas. Trabalhou num parque de diversões e atuou como membro do grupo Gajokai na BSGI.
“Foi uma aventura, sim. Por vezes, mal tinha o que comer. Não sei se hoje faria a mesma coisa [risos]”, relembra. A saudade de Natal e da família falou mais alto e retornou.
Amor pela educação
Um dos seus sonhos era o de ser professor. Em 2007, inscreveu-se num programa do governo para ser alfabetizador. “Com Daimoku e persistência, fui selecionado e formei turmas. No fim, 122 pessoas foram alfabetizadas no local ondo moro.”
Ele também conseguiu uma bolsa de estudos do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), em que já publicou dez artigos na área de psicomotricidade. Inspirado pelos incentivos do presidente Ikeda de continuar os estudos, desejava estudar matemática.
Como cursa Ciências da Religião numa universidade pública, devido a uma norma da instituição, não poderia fazer matemática. Joselito lutou ainda mais na organização e recitou Daimoku.
Em 2009, foi lançado um programa do governo federal para graduar professores do Estado.
Emocionado, conta: “Fiz a inscrição, mas nem imaginava ser convocado por não ser professor da rede pública. Entretanto, para o Daimoku não existe empecilho. Um ano depois, fui contratado pela Secretaria de Educação do Estado para lecionar Filosofia e pude cursar Matemática.”
Hoje, o professor se divide entre as duas faculdades e as aulas de matemática que ministra em duas escolas. “Sou feliz por ser reconhecido profissionalmente.” Desafios, saúde e Kossen-rufu
Há alguns anos, Joselito descobriu que tinha artrite reumatoide, doença que pode causar paralisia. Para reverter o quadro, ele partiu para a ação: recitou intenso Daimoku, visitou os membros e os convidados de sua localidade.
Após um ano de luta, medicamentos e fisioterapia, a doença ficou estável e ele voltou a trabalhar. Em meio a muitas risadas, ele nos conta que certa vez explanava uma matéria na reunião quando começou a se sentir mal de tanta dor.
“Suava feito tampa de chaleira. [risos] Mas concluí a matéria e serviu como relato, pois o Gosho falava sobre vencer a doença. Quero e vou atuar a cada dia em prol do Kossen-rufu em gratidão ao Ikeda Sensei. Por isso, faço o tratamento direitinho e estou melhorando”, conta.
Joselito define como deve agir e pensar seguindo o mestre: “Daisaku Ikeda é um exemplo humano a ser seguido. Não no sentido de venerá-lo. Procuro pôr em prática seus direcionamentos. Vejo a ligação do Sensei com o presidente Toda, pois ele cumpre o desejo pela paz de seu mestre. É o que quero cultivar a cada momento”.
Novos rumos
Em agosto de 2011, a Área Rio Potengi foi fundada e Joselito, nomeado responsável. A localidade vem se desenvolvendo com alegria, união e ótimos resultados.
Para encerrar nossa agradável conversa, Joselito conta que uma das estratégias para renovar a organização é focar na realização de Chakubuku e no treinamento dos jovens: “Voltamos a fazer Chakubuku. Neste ano, seis famílias receberam o Gohonzon. Existia certa estagnação aqui, mas com estudo, Daimoku e diálogo estamos mudando isso”.
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