O melancólico fim do programa Apollo

Cortes de orçamento, falta de motivação política e um aberto desinteresse do público americano enterraram o programa que levou o primeiro homem à Lua - e com ele, alguns sonhos da era espacial


A rede de televisão americana CBS recebia ligações indignadas de telespectadores. Eles se queixavam da interrupção da exibição do seriado I Love Lucy. Era 11 de dezembro de 1972, e a CBS transmitia a chegada à Lua da Apollo 17 - a última viagem do ser humano ao satélite. Os telespectadores preferiam a reprise de uma série gravada havia 12 anos.



Apenas 3 anos antes, em 20 de julho de 1969, o mundo inteiro se colava à TV para assistir à transmissão ao vivo da caminhada lunar da Apollo 11. Era a conclusão épica da corrida espacial, uma rivalidade pacífica, meio científica, meio propagandística, entre União Soviética e Estados Unidos, começada com o lançamento do satélite soviético Sputnik 1, em 1957. A Apollo 12 chegou à Lua em 19 de novembro de 1969, apenas 4 meses depois da viagem inaugural. O satélite continuava um deserto cinza, mas agora o público contava a empolgante novidade de um pouso mais preciso.

O governo americano, que sabia da importância da propaganda, notou que o entusiasmo do público não duraria. Em fevereiro de 1970, a Nasa recebeu as primeiras recomendações para reduzir seus gastos. A coisa não ficou melhor quando a missão da Apollo 13 quase acabou em desastre, sem nem chegar a pousar na Lua, em abril do mesmo ano. A Nasa encolheu o orçamento em 500 milhões de dólares, em 1970, e mesmo assim recebeu 100 milhões de dólares a menos do que pediu (3,5 bilhões de dólares, em valores da época). Até o fim daquele ano, 3 missões foram canceladas. A partir da Apollo 15 (julho de 1971), o foco passou a ser mais pesquisa científica que propaganda, com o uso do jipe lunar e missões de maior duração, em média de 3 dias em solo lunar.

A Apollo 17 passou 3 dias, 2 horas e 59 minutos no satélite, a mais longa das missões. Em 13 de dezembro, Harrison Schmitt e o piloto Eugene Cernan passaram 7 horas e 15 minutos fora do módulo, na mais longa caminhada lunar. Fizeram medições de gravidade e coletaram 66 kg de pedras. No dia seguinte, decolaram, tornando-se os últimos humanos a pisar na Lua. A Nasa prosseguiu com a atual fase da Era Espacial. Lançou o Skylab em 1973, juntou astronautas americanos e soviéticos no projeto Apollo-Soyuz de 1975 e lançou o ônibus espacial em 1981 (o programa acabou no ano passado, depois de 3 acidentes). O fim das missões lunares foi melancólico. Depois de apenas 3 anos, o público estava cansado do espetáculo. E quem pagava a conta percebeu que o custo era alto demais para a quantidade de pedras recolhidas.

MUITO LONGE


Primeira missão tripulada a escapar da órbita da Terra, a Apollo 8 deu a volta à Lua sem tocar a superfície do satélite. Seus astronautas se tornaram os primeiros seres humanos a avistar o lado escuro da Lua. A foto ao lado, a primeira a mostrar nosso planeta por inteiro, foi tirada pelo astronauta William Anders. Pelo rádio, os astronautas leram 10 versículos do Livro do Gênesis. Um ateu processou a Nasa pela carolice.

GLÓRIA MÁXIMA


Em 25 de maio de 1961, o presidente John Kennedy prometeu no Congresso que um americano pisaria na Lua antes do fim da década. Transmitida ao vivo para o mundo todo, a caminhada lunar do comandante Neil Armstrong na Apollo 11, em 20 de julho de 1969, teve audiência estimada de 600 milhões de espectadores (um em cada 5 terráqueos). Armstrong imortalizou a frase "um pequeno passo para um homem, um grande salto para a humanidade".

QUASE DESASTRE


A explosão de um tanque de oxigênio na Apollo 13 fez com que os astronautas tivessem de abortar o pouso na Lua. O acidente inicial causou a falha de diversos outros componentes e por pouco a missão não acabou em uma tragédia pior que a da Apollo 1, na qual 3 astronautas morreram queimados.

CARRO DE ASTRONAUTA


Se as primeiras missões foram mais propaganda política que qualquer outra coisa, as missões 15 a 17 tinham um propósito mais científico. O famoso jipe lunar foi usado nessa fase do programa.
SAIDEIRA


A Apollo 17 foi a única a levar um cientista de verdade para o espaço. Os astronautas realizaram vários experimentos e trouxeram muito material na missão mais longa de todas. O público já não dava a mínima e a Nasa partiu para projetos mais modestos.


Texto Fernando Badô | 20/12/2012 16h55


Missões Apollo
Entre 1967 e 1972, a corrida americana para chegar à Lua antes dos soviéticos
1967

Apollo 1 - Teste do módulo de comando, acabou em tragédia. Um incêndio matou os 3 astronautas. O nome da missão era - AS-204. Como homenagem, ganhou a honra de ser a primeira Apollo.
Apollo 2 e 3 - Nenhuma missão recebeu esses nomes.
Apollo 4 - Não tripulada, lançou o foguete Saturno 5 para teste orbital.
1968

Apollo 5 - Não tripulada, teste do módulo lunar.
Apollo 6 - Não tripulada, outro teste do foguete Saturno 5.
Apollo 7 - Tripulada. Teste dos sistemas de suporte à vida, de controle e propulsão.
Apollo 8 - Astronautas orbitam a Lua na noite de Natal, façanha que os soviéticos nunca alcançaram.
1969
Apollo 9 - Teste, em órbita terrestre, do Módulo Lunar
Apollo 10 - Teste, em órbita da Lua, - do Módulo Lunar.
Apollo 11 - Levou os primeiros homens a caminhar na Lua, uma vitória na corrida espacial.
Apollo 12 - Recolheu partes da sonda espacial Surveyor.
1970

Apollo 13 - Um acidente quase matou a tripulação.
Apollo 14 - O astronauta Alan Shepard jogou golfe na Lua.
1970

Apollo 13 - Um acidente quase matou a tripulação.
Apollo 14 - O astronauta Alan Shepard jogou golfe na Lua.
1972

Apollo 17 - Última viagem à Lua, realizou observações e experimentos geológicos.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

José Honório Rodrigues: a obra inacabada

Encontro com o Mestre