O clã e o Jabuti
O prêmio Jabuti não pode se transformar em instrumento de apadrinhamento institucional
Welington Andrade
Em Formação da Literatura Brasileira: Momentos Decisivos, 1750-1880, o professor Antonio Candido refere-se de passagem, no capítulo “Transição literária”, à literatura congregada praticada por grêmios e associações em meados do século XVIII: “Os letrados tendiam a reunir-se em agrupamentos duradouros ou provisórios, – seja para cumprimento a longo prazo de um programa de estudos e debates literários, seja para comemorar determinado acontecimento. A duração e o grau de organização podem ser tomados, portanto, como critério diferenciador, desde que não levem a supor tipos extremadamente puros, que na realidade inexistiam, pois o elemento comemorativo – contingente e fortuito – ponderava também no primeiro tipo, servindo de pretexto e motor às suas sessões correntes”.
O crítico classifica o ambiente para a produção literária da época como “o mais pobre e menos estimulante que se pode imaginar”, levando à produção de uma “subliteratura” que acabou sendo acolhida nas Academias. Ao tratar dos traços comuns característicos da função social e intelectual exercida pela literatura associativa, Antonio Candido identifica nela três funções diferentes. Primeiramente, “a associação criava atmosfera estimulante para a vida intelectual, favorecendo o desenvolvimento de uma consciência de grupo entre os homens cultos e levando-os efetivamente a produzir”. Em segundo lugar, pela ótica do consumo, não da produção literária, “a agremiação desempenhou outra função de igual relevo: proporcionar a formação de um público para as produções literárias. Não apenas os próprios consórcios formavam grupo receptor em relação uns aos outros, como as atividades gremiais reuniam ou atingiam os demais elementos que na Colônia estavam em condições de apreciá-las. Foi, portanto, um autopúblico, num país sem públicos”. Por fim, segundo o crítico, as agremiações “foram elementos de proposição e reforço dos padrões dominantes, girando as suas produções quase sempre em torno da devoção religiosa, a lealdade monárquica, o respeito à hierarquia; enfim, reforçando a cada passo a estrutura vigente de dominação. No caso da colônia brasileira, é preciso ajuntar que representavam, neste sentido, um reforço da política de imposição da cultura erudita de tipo europeu, em detrimento das manifestações de cunho popular, que assumiam relevo ameaçador em certos casos”.
No início do século 21, o Brasil parece respirar, sem sombra de dúvida, uma atmosfera muito mais estimulante para a vida intelectual do que há duzentos, trezentos anos. Em relação às práticas de leitura, por exemplo, podemos dizer que o quadro é complexo (mas não desanimador), devido a uma assimetria vivida entre os vários níveis existentes no processo de produção material e simbólica do objeto livro. No âmbito da criação, há autores produzindo a pleno vapor, individual ou coletivamente, e um novo grupo de jovens escritores começa a ser identificado como uma geração – o que é bastante positivo para a idéia de sistema literário. No terreno da crítica, há, de um lado, a atuação contínua da imprensa, com suas revistas e cadernos segmentados; e, de outro, a expressiva presença da universidade, fomentando o espírito da pesquisa acadêmica (vale a pena destacar a migração cada vez mais crescente destas pesquisas para o mundo editorial).
Já na área da recepção, as coisas não parecem tão fáceis. A despeito de um vasto potencial para o consumo da cultura letrada (para a qual a educação das classes C e D está se dirigindo seus esforços), somos ainda, infelizmente, um país de não-leitores, por inúmeras razões. A alta taxa de analfabetismo total, os alarmantes índices de analfabetismo funcional, a inércia da educação pública e a predominância predatória da cultura da imagem consagrada pela indústria cultural figuram entre elas. Por fim, há o setor responsável pela produção material do livro e por sua inserção mercadológica, representado pelas editoras, livrarias, distribuidoras, empresas de venda direta de livros e importadoras – todas elas congregadas em uma associação de classe: a Câmara Brasileira do Livro (CBL).
Fundada em 1946, a CBL tem a nobre e espinhosa missão de “divulgar o livro e a leitura no Brasil” e para isso organiza uma série de serviços e eventos de caráter geral, como feiras nacionais e internacionais e encontros de editores e livreiros, e outros de natureza específica, como a Escola do Livro, a Bienal Internacional do Livro de São Paulo e o Prêmio Jabuti, “o mais tradicional prêmio do livro no Brasil”, criado em 1958.
Alvo de recentes polêmicas, o Prêmio Jabuti assim é descrito em texto estampado no site da CBL: “Atualmente, editoras dos mais diversos segmentos e escritores independentes de todo o Brasil inscrevem milhares de obras em busca da tão cobiçada estatueta e do reconhecimento que ela proporciona. Receber o Jabuti é um desejo acalentado por todos aqueles que têm o livro como seu ideal de vida. É uma distinção que dá ao seu ganhador muito mais do que uma recompensa financeira. Ganhar o Jabuti representa dar à obra vencedora o lastro da comunidade intelectual brasileira, significa ser admitido em uma seleção de notáveis da literatura nacional”.
Não soa curioso, pois, que, no trecho em destaque, a premiação apareça como um fim em si mesmo tanto quanto a ausência de bons argumentos a favor da importância da literatura imprima de modo particular um viés publicitário e mercadológico à iniciativa, de que não necessita uma atividade literária verdadeiramente empenhada e crítica?
É óbvio que não se espera que uma entidade de classe como a CBL profira um discurso articulado e crítico a respeito do poder da literatura, mais afeito aos círculos acadêmicos e intelectuais. Por outro lado, ao tomar o livro, a literatura e a leitura como missão, a instituição poderia ousar mais em sua fala, atenuando as marcas de sedução que emanam da palavra “lastro” e da expressão “ser admitido em uma seleção de notáveis”, usadas em contexto de indigente celebração.
Do mesmo modo que ocorre na esfera das instituições políticas, as entidades de classe voltadas à cultura no Brasil vivem muitas vezes às voltas com a acomodação de interesses inconciliáveis, perdendo de vista, então, a noção de que é preciso abraçar, de fato, uma nova ordem cultural. Lembra o professor Alfredo Bosi, em Dialética da Colonização, que, no processo colonizador, “a cultura letrada é rigorosamente estamental, não dando azo à mobilidade vertical, a não ser em raros casos de apadrinhamento que confirmam a regra geral”.
O Prêmio Jabuti, que já distinguiu tantos escritores e intelectuais brasileiros notáveis, não pode se transformar em instrumento de apadrinhamento institucional, tampouco deve corresponder ao apetite do comércio de livros pela mercadoria avalizada. Que serviço pode prestar à cultura brasileira uma premiação atribuída pela lógica que rege o senso comum e por um regulamento inconsistente – atuando ambos os fatores em total descompasso com a necessária consciência da historicidade do fazer literário?
Uma recompensa institucional na área da literatura em um país assentado sobre graves desequilíbrios deveria funcionar como um vetor cultural que orientasse escritores, leitores e mercado rumo a um novo futuro. A indústria cultural já está repleta de eventos comemorativos contingentes e fortuitos, e a CBL não precisa adentrar esse terreno. Não espanta, pois, que, em inúmeras feiras e premiações, de norte a sul do País, a literatura seja tratada como um evento espetacular (movido pela lógica do autor-celebridade e do livro-fenômeno), exprimindo de modo maciçamente convencional os valores dominantes.
Cabe uma discussão transparente a respeito dos critérios que devem nortear a atribuição de um prêmio como o Jabuti, a fim de que a congregação que ele representa integre sem ressalvas a atmosfera intelectual genuína vivida no Brasil de hoje. Do contrário, a premiação tornar-se- -á uma dádiva, um obséquio, um fetiche. Reservemos somente aos contos tradicionais do Brasil a fantasia de que um jabuti é o possuidor de uma virtude mágica.
Wellington Andrade é doutor em Letras (Literatura Brasileira) pela USP e professor do curso de jornalismo da Faculdade Cásper Líbero.
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